A experiência espiritual de Vicente de Paulo, no concreto de sua vida, do ponto de vista de seu processo de conversão, é uma experiência de altedenilsonridade[1], experiência de verdadeira interação e de vivência profunda do “eu-tu”, marcada pela dimensão da fé. Foi na cotidianidade daquilo que viveu que ele se deixou moldar pelas mãos do Senhor, como barro nas mãos do oleiro (Cf. Jr 18). Primeiro, neste deixar-se moldar por Deus, ele viveu um processo de conversão sem a clara consciência da ação do Espírito que reformulava suas intenções primeiras, relacionadas à sua vocação sacerdotal, abraçada num propósito inicial de enriquecimento. Paulatinamente será revelada a Vicente de Paulo a maravilhosa face de um Deus que de sua misericórdia e compaixão se faz serviço, se faz entrega e doação àqueles que sofrem, à humanidade ferida; estendendo seus braços para abraçá-la no mais profundo de seu sofrimento, mostrando-se como Deus-relação. Vicente desenvolve uma relação pessoal com o Deus de Jesus Cristo que entra em contato conosco, revelando-nos seu rosto, numa relação cara-a-cara baseada no diálogo, na fidelidade e na entrega de si mesmo. O Deus conhecido por Vicente de Paulo, a imagem de Jesus que ele descobre e a experiência do Espírito que ele faz alicerçam sua vida na experiência trinitária d’Aquele que preferiu estar ao lado do órfão, da viúva e do estrangeiro[2]. É um Deus que como Outro, quis relacionar-se conosco[3]; por isto esta alteridade maiúscula e divina faz-se também humana e entra no jogo da nossa vida. Esta alteridade transcendental, horizonte último de sentido para a existência humana, é um eu-comunitário e fraternalmente relacional em suas três pessoas e vem a nós, ao nosso encontro de modo humilde, simples, desejando conversar.

A experiência espiritual de Vicente de Paulo parte desta experiência de alteridade; de uma experiência de fé oriunda do reconhecimento da divindade no humano (a encarnação do Verbo); principalmente no humano fragmentado; “nadificado” no seu núcleo definidor, em sua humanidade empobrecida, agonizante e aprisionada pelos sistemas de estruturas que visam matar e oprimir.

 A experiência de Deus que Vicente de Paulo faz é realizada num contexto determinado; no sombrio cenário francês dos fins do séc. XVII e princípios do séc. XVIII; tempos marcados pela tríade peste, fome e guerra. É precisamente aí que ele assume sua tarefa vital, o desenlace de sua vocação que se dá na saída de si mesmo para a abertura ao Outro, no desenvolver de sua responsabilidade pelo Outro: “É a sensibilidade de um-para-o-outro, que permite a um receber o outro. Um ser humano sensível e singularizado que recebe sensivelmente o outro, como comida saborosa que alimenta, como roupa que cobre e agasalha, como a água que mata a sede, como teto que cobre, etc. Um ser humano sensível e singularizado que recebe sensivelmente o outro ser humano como uma Alteridade que lhe está concernida quando este lhe aparece com fome, frio, sede, enfermo, sofredor, pobre, indigente, etc.”[4] Na perspectiva da alteridade, Vicente experimenta Deus e se abre a um processo gradual de conversão. Não existe conversão (metanoia), este processo de profunda transformação das condutas moral e espiritual, que não leve em consideração o Outro abandonado à sua própria sorte.

A alteridade, a relação de comunhão com o Outro enquanto próximo, encontra seu cume em Jesus Cristo. É através dele que Deus se revela para a humanidade e é Jesus que nos ensina a nos relacionarmos com os demais e com seu Pai, que é nosso Pai. Esse modelo de relação ensinado por Jesus nos mostra que o Outro merece todo o respeito e todo o amor. A medida deste amor é o amor de Deus que nos amou até o fim. E finalmente nos ficará a mensagem de que a este Jesus Cristo que nos revela Deus, podemos encontrá-lo no Outro, no pobre, no que sofre e podemos acessá-lo através do amor, o único que nos resta[5]. Vicente de Paulo aprendeu, aos poucos, a contemplar e a compreender a Jesus como Deus encarnado na humanidade; não só o Deus encarnado, mas o Deus que assume em si mesmo as dores, as misérias e as mazelas da humanidade inteira, para redimi-la e salvá-la do mal. São Vicente redescobre Deus como aquele que está presente e encarnado no pobre e em sua pobreza. Em seu processo de Kenosis, Deus se esvazia de si mesmo convidando-nos à experiência da alteridade com ele. É um esvaziamento silencioso, discreto, que não invade o espaço da criatura, que não agride; respeita a alteridade de cada coisa e convida cada coisa para uma relação com a sua própria alteridade encarnada, pretendendo ser encontrado no diálogo avindo da liberdade[6].

Em uma época marcada pela tragédia e miserabilidade do povo, Vicente de Paulo fez o movimento de saída de si mesmo. Aprendeu a esvaziar-se de suas vontades e de seu querer, para encher-se do Deus de Jesus Cristo. Este movimento o conduziu a uma via espiritual que o ajudou a compreender a necessidade do desapego daquilo que pode, somente, favorecer a nós mesmos para entrar na dinâmica da liberdade do serviço e do diálogo com o próximo, que é a dinâmica da entrega total aos que mais precisam. Neste sentido a espiritualidade vicentina é um convite a uma relação transparente não com o “próximo com quem queremos estar”; porque nos faz bem, porque podemos manipular ou tentar possuir. Esta espiritualidade nos ajuda a contemplar o rosto de Deus no sofrimento, na dor, na pobreza, na pequenez, na humilhação e no pranto dos miseráveis. A espiritualidade vicentina nasce do esvaziamento de nós mesmos e da abertura para com o próximo, nasce de um profundo e verdadeiro desejo evangélico de dialogar com os pobres. É a espiritualidade que nos convida à relação com o próximo, que é o Outro enquanto ser humano livre, que não pode ser possuído ou manipulado, é o outro enquanto interpelação a um diálogo que passa pela via da sensibilização, do cuidado e da gratuidade.

A espiritualidade vicentina é uma fonte riquíssima que nos ajuda a redescobrir a face de Deus e a compreender o que Ele quer de nós. Afirmo sem medo que a espiritualidade vicentina é a espiritualidade da alteridade. Somos chamados a exercê-la hoje, nos mais diversos contextos onde estamos inseridos.

 Infelizmente, o ser humano têm se deixado corromper pelo egoísmo, pelo individualismo, pela técnica que visa o lucro e, deste modo, tem gerado um mundo de desigualdades sociais, de fome, de dor, alicerçado na miséria humana e na insensibilidade. Neste contexto amedrontador somos convidados a reconhecer, por uma questão ética e por uma questão de fé, que não somos os únicos no mundo. Um senso de reconhecimento da pobreza alheia que nos chega através da experiência de conversão de nossas atitudes nos revela a face do outro, em sua nudez, em seu despojamento e em suas necessidades mais profundas. A experiência vicentina nos remete à dimensão de uma vida comunitária, de relações que provocam em nós verdadeiras mudanças de atitudes, levando-nos a dar respostas concretas frente à dor do próximo e levando-nos a ser responsáveis pelo outro em seus limites e vulnerabilidade.

[1] A Alteridade não é apenas uma qualidade do outro, é sua realidade, sua instância, a verdade do seu ser e, por isso, para nós, torna-se muito fácil uma permanência na coletividade e na camaradagem – difícil e sublime é co-habitar com a diferença, é viver o eu-tu profundamente (HADDOCK-LOBO, Rafael. Da existência ao infinito: Ensaios sobre Emmanuel Lévinas. São Paulo: Loyola, 2006. p. 48).

[2] Fala-se desses grupos sociais num sentido sempre restrito, definido e inserido numa determinada situação de demanda, de pessoas que se veem envolvidas numa esfera de violação de seus direitos e, ao mesmo tempo, têm consciência de que, sem a proteção legal, se encontram à mercê da própria sorte, isto é, correm o risco de morte. (FRIZZO, Antônio Carlos. A Trilogia Social: estrangeiro, órfão e viúva no Deuteronômio e sua recepção na Mishná. Tese (Doutorado em Teologia)–Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009. P. 34)

[3] A Divindade, como alteridade comunitária-transcendental (Trindade – Deus), relaciona-se de modo único e amoroso com a humanidade, alteridade comunitária-imanente (homens, mulheres – comunidade de fé), em sua totalidade.

[4] COSTA, Márcio Luiz. Lévinas: uma introdução. Petrópolis: Vozes, 1999. P. 167.

[5] ARGIRO, Restrepo Sierra. La revelación según René Latourelle. Tesi Gregoriana; Serie Teologia 60, Editrice Pontificia Università Gregoriana; Roma, 2000. P. 165-166.

[6] HACKMANN, Pe. Geraldo L. B. (organizador). Sub umbris fideliter: Festschrift em homenagem a Frei Boaventura Kloppenburg. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999. P. 236-237.